Rua da Sovela



Ilustração: Lara 


Desde a curva da pequena rua a  lua redonda  e luminosa acompanha cúmplice e silenciosa os acanhados passos do velhote com sua maleta misteriosa.

Tal maestro de sons e encantos extraí de seus sapatos surrados, pequeninas estrelas de poças d`água refletidas na noite miúda.

Conforme o homem passa, rege-se em cadencia o apagar de luzes e burburinhos sorrateiros vindos das janelas das casas fechadas.

Com o nascer do dia,  o som da noite reverbera  e a  gente  afirma que o pequeno homem só deve de ter  nome e sobrenome.

Doutor Ateobaldo, como fora conhecido no passado, cuidava silenciosamente no presente de doentes daquela região. De sua  maleta misteriosa  escapavam vez ou outra algumas ilusões, sonhos gigantescos ou anões, brincadeiras divertidas e sorrisos tímidos. Remédios que curavam o coração.

De tudo que todos sabiam. Ninguém sabia era nada! ... E o homem feito de pinceladas de todas as cores. De lembranças de amar e ser amado, de doar e de tudo que só o tempo pode curar. Continuava sua caminhada.

Não haviam  mistérios ou sustos nesta história, nem tão pouco monstros!

Ateobaldo era apenas um Senhor de cabelos brancos e roupas simples, esquecido pela gente e aposentado pelo mundo. Um homem  que dedicava  parte de seu tempo para os necessitados de carinho e compreensão. Consigo carregava suas virtudes, seus retalhos coloridos de uma vida bem vivida e feliz.

Na verdade, aqueles que falavam pelos cotovelos, sofriam de uma espécie de doença crônica que só gente mexeriquenta pode ter e o Senhor de tantos saberes não havia encontrado durante toda sua vida um só remédio para tal enfermidade. Por isso, não lhe restava nada além de sorrir e continuar pela inquieta e curiosa rua.

O tempo passou e o velhote pouco a pouco parou de passar...

Porém, ainda hoje sua esposa guarda as lembranças e costura os pedacinhos de paz daquele lugar, enquanto sua única neta corre contra o vento pelos gramados alaranjados de uma de tarde de Outono recordando a cada momento o que aprendeu com o avô... Respeito, gratidão e amor.

E até hoje, quando a gente da Rua da Sovela olha para o céu pode jurar que vê Ateobaldo sorrindo entre as nuvens coloridas de algodão.


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Nany Peres